Deu na imprensa: ‘Filhos de uma nação gloriosa’: presos ajudam a construir o Castelão

3 de agosto de 2011 - 03:00

 

 

‘Filhos de uma nação gloriosa’: presos ajudam a construir o Castelão

Presos que trabalharão na reforma do Castelão combatem o preconceito e afirmam:

‘Também somos humanos e filhos de uma nação gloriosa’

Por Diego Morais

 

Há pouco mais de 20 dias, a vida de seis homens mudou. Eles eram identificados por números entre os 15.775 presidiários no estado do Ceará. Porém, neste período, ganharam uma oportunidade. Eles participaram de um processo seletivo que envolvia outros nove deles. Depois de algumas entrevistas e uma criteriosa avaliação de comportamento, seis foram escolhidos para fazer parte da construção de um pedaço da história da Copa do Mundo de 2014: o Estádio Castelão.

Agora, eles atendem novamente por seus respectivos nomes: Anjeferson Ferreira dos Santos, 29 anos; Antônio César Jorge de Lima, 38 anos; Jailton Feitosa Lima, 37 anos; Jorge Alves de Souza, 29 anos; Josenias Ferreira Andrade, 28 anos; e Paulo Roberto do Nascimento Lima, 35 anos. Depois de serem presos, condenados e de cumprirem parte da pena, os seis conquistaram o direito da progressão para o regime semiaberto e ainda ganharam a oportunidade de recomeçar através do trabalho.

Cansados dos números, eles não se importaram em revelar os nomes. Sufocados e privados de liberdade, também não quiseram esconder o rosto. O GLOBOESPORTE.COM/CE acompanhou com exclusividade o dia em que os seis presos passaram do regime fechado para o semiaberto, conquistaram liberdade condicional e a chance de uma nova vida ao serem empregados no canteiro de obras do estádio Castelão, que será uma das sedes da Copa do Mundo de 2014.

Uma vida guiada pela bola e pela fé

Jaílton Feitosa estava preso há nove anos. Os últimos três no Instituto Penal Professor Olavo Oliveira II (IPPOO II), em Itaitinga, na grande Fortaleza – onde 632 presos julgados cumprem pena hoje no estado do Ceará. Antes de ser condenado, ele trabalhava de motorista. Segundo Jaílton, a vida dele começou a ser destruída depois que passou a se envolver com drogas.

– A cocaína acabou com a minha vida. A minha e da minha família – declarou Jaílton.

Jailton, com a Bíblia em punho, ao deixar o IPPOO II
(Foto: Diego Morais / Globoesporte.com)

O tempo de prisão foi o purgatório. Na Bíblia, que ele carrega para um lado e para o outro, purgatório, perdão, amor e justiça são palavras corriqueiras. Porém, foram estas e outras palavras que Jaílton utilizou para evangelizar dentro do presídio. Foram também palavras como estas que o ajudaram a ser avaliado como alguém de “boa conduta” e pronto para viver em uma liberdade condicionada.

Hoje, o instrumento que Jailton carrega é a Bíblia, mas já foi a bola um dia. Durante muito tempo, dedicou-se ao futsal. Jogava na posição de goleiro. Foi assim que ele conseguiu ganhar bolsas de estudos em vários colégios de Fortaleza e completar o Ensino Médio. Mal sabia as voltas que a vida iria dar e levá-lo novamente ao mundo do futebol.

– Eu vivia no Castelão assintindo a jogo do Fortaleza. Nunca imaginei na minha vida que faria parte desse momento – contou o ex-goleiro.

A hora da liberdade

Jailton não imaginava trabalhar nas obras do Castelão, mas sonhava com a liberdade. Para passar ao regime de prisão semiaberta, ele precisava da garantia de um emprego. Há pouco mais de três semanas, começou uma rotina de testes, entrevistas e avaliações. A proposta envolvia Secretaria da Justiça e Cidadania, Secretaria Especial da Copa e o Consórcio Construtor (responsável pelas obras da Arena Castelão). Um contrato assinado por estes órgãos e empresas permitiu que Jailton e mais cinco colegas saíssem de vez do regime fechado.

Prisioneiros deixando o IPPOO II para o Castelão (Foto: Diego Morais / Globoesporte.com)Prisioneiros deixando o IPPOO II  (Foto: Diego Morais / Globoesporte.com)

Os seis aprovados nos testes de seleção assinaram, na última segunda-feira, um termo aceitando as condições para cumprir o regime semiaberto. Entre elas, nada de bebidas alcóolicas, festas, shows, e a principal: evitar qualquer atitude fora da lei.

O momento da assinatura dos termos foi de felicidade extrema. Mal sabiam eles que, descendo as escadas, encontrariam os parentes mais próximos aguardando seus retornos. Anjeferson trazia confiança no rosto.

– Não é pelos delitos que cometi que não posso ter outra chance. Tenho certeza que vou ajudar a levantar o Castelão até 2013 – declarou Anjeferson.

Jorge com a boneca no IPPOO II, antes do Castelão (Foto: Diego Morais / Globoesporte.com)Jorge mostra a boneca que fez para a namorada
(Foto: Diego Morais / Globoesporte.com)

Antônio Jorge e Jaílton eram os mais emocionados, mas havia ainda um fato em comum entre quase todos eles: uma Bíblia na mão. Porém, na de Jorge Alves, além da Bíblia estava também uma boneca, que ele mesmo havia feito dentro da prisão.

– É um presente que quero dar para minha namorada. Agora eu tenho uma pessoa muito especial lá fora. Espero que, com essa boneca feita por mim, ela abra um sorriso ao me ver – informou o artesão.

O reencontro com a liberdade foi mais um momento de emoção no dia destes seis homens. Entre sorrisos e lágrimas, as promessas de não voltar mais a cometer erros. Alguns bradavam ‘Glória a Deus’, enquanto outros mal conseguiam pronunciar qualquer palavra. Antônio Jorge reencontrou, logo de cara, o filho de 12 anos, Jhonathan, e se debruçou em lágrimas.

Presidiário deixando o IPPOO II, Castelão (Foto: Diego Morais / Globoesporte.com)Antônio Jorge abraçado ao filho Jhonathan
(Foto: Diego Morais / Globoesporte.com)

– Meu filho, nunca faça a mesma coisa que eu. Aqui não é lugar pra você – falou o emocionado pai.

Do IPPOO II, os seis presos saíram com três vales-transportes: um para casa, outro para o Castelão no dia seguinte, e o último para retornar às suas respectivas residências. Alguns acompanhados, outros não. Porém, todos saíram com esperanças renovadas e a certeza de que o presídio estava ficando para trás.


No dia seguinte: a multiplicação das mãos

Depois de passarem do regime fechado para o semiaberto, o dia seguinte foi de apresentação no Estádio Castelão. Os seis presos conheceram mais seis colegas que estavam em regime aberto e há três meses participavam também de um processo seletivo. Pela primeira vez, alguns deles chegavam tão perto do estádio. E mesmo os que já tinham visto o Castelão estavam deslumbrados com a imensidão de obras acontecendo.

Uma coisa era comum aos doze: a ansiedade. Uns aos outros se perguntavam como seria o trabalho, o que iriam fazer e quando começariam. As respostas não tardaram. Presentes ao momento estavam a secretaria da Justiça, Mariana Lobo, o secretário especial da Copa, Ferruccio Feitosa, o gerente de contrato do consórcio, Waldemar Biselli, além de magistrados que estiveram envolvidos neste projeto.

Aos poucos, os doze presos foram conhecendo os termos do contrato de trabalho. Os seis que estavam em regime aberto já começam a trabalhar nesta sexta. Os outros seis somente na próxima segunda. Primeiramente, eles passarão por um período de convivência e farão um treinamento no local das obras. Os doze atuarão como auxiliares de pedreiro.

Paulo Roberto no Castelão (Foto: Diego Morais / Globoesporte.com)Paulo Roberto emocionou secretária da Justiça em
discurso (Foto: Diego Morais / Globoesporte.com)

Durante a assinatura do contrato, Paulo Roberto foi escolhido para falar em nome dos novos trabalhadores do Estádio Castelão. Em seu discurso, não faltaram palavras de amor, vitória e do desejo de recomeçar.

– A sociedade nos julga e tem preconceitos. Mas nós também somos humanos, cidadãos brasileiros e filhos de uma nação gloriosa. Nós ajudaremos a erguer o Castelão – bradou Paulo Roberto, durante seu discurso.

Projeto em expansão

Os 12 presos em regimes aberto e semiaberto são os primeiros de muitos que ainda irão se integrar aos canteiros de obras em Fortaleza para a Copa do Mundo de 2014. É o que promete a Secretaria Especial da Copa. O secretário não falou em números, mas garantiu que haverá mais colaboradores vindos do sistema penitenciário do Ceará para trabalhar, não apenas no Castelão, mas também nas outras obras estruturais da cidade.

– Este é apenas o primeiro passo. Nós ainda queremos ampliar esse número. O importante é dar a oportunidade de ressocializar essas pessoas – declarou Ferruccio Feitosa.

A Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado do Ceará (Sejus) trabalha hoje na capacitação de 320 presos. A entidade pretende incluí-los nos projetos da Copa. Outros presidiários de regime fechado também estarão trabalhando, mesmo dentro dos presídios, na confecção de souvenirs para turistas.

– Os presídios precisam deixar de ser apenas locais de aprisionamento e passarem a ser lugar de recuperação de pessoas. Essa é a nossa função – informou a secretária da Justiça, Mariana Lobo. 

Fortaleza quer seguir os mesmos passos de Belo Horizonte. Na capital mineira, 42 detentos do regime semiaberto da penitenciária José Maria Alkimim, em Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte, estão trabalhando na reforma do Mineirão. Esse número deve chegar a 150, até o fim do ano, e a 200, até o meio do ano que vem, quando duas mil pessoas estarão trabalhando na obra.

Presos e autoridades no Castelão (Foto: Diego Morais / Globoesporte.com)Novos funcionários ao lado de autoridades no Estádio Castelão (Foto: Diego Morais / Globoesporte.com)

A Redenção

Em 20 anos, o Brasil pulou de 90 mil para quase meio milhão de presos, espalhados em 600 unidades, segundo dados do Ministério da Justiça. Isto significa um aumento de 396%. O país é campeão mundial em criação de vagas no sistema penitenciário. Um modelo penal que custa caro aos cofres públicos.

A cotação média de construção de um estabelecimento prisional com capacidade para 500 presos é de US$ 8 Milhões, conforme informa o Departamento Penitenciário do Ministério da Justiça.

A ressocialização é assunto comumente debatido entre magistrados, autoridades políticas e sociedade civil. Enquanto muitos condenam, alguns criticam e outros lutam para se tornar uma política efetiva de Estado.

Estes 12 presos que tiveram a oportunidade de trabalhar novamente não estão longe desta discussão. Eles fazem questão de falar por eles e pelos colegas que ainda estão no presídio.

– Muitas pessoas têm o desejo de mudar e só precisam de uma oportunidade como esta – declarou Jorge Alves.

– O Governo só pensa em contruir mais cadeias, mais presídios. Eles deveriam era dar mais chances para resocializar quem está nelas – defendeu Jaílton Feitosa.

Para quem tinha algemas nas mãos, hoje eles têm a oportunidade de ser livres novamente. Amanhã, querem voltar a sustentar as suas famílias com o próprio trabalho. 

Fonte: GloboEsporte/Ceará

http://globoesporte.globo.com/ce/noticia/2011/08/filhos-de-uma-nacao-gloriosa-presos-ajudam-construir-o-castelao.html